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Novidade

Cynthia Galindo

Cynthia Galindo é cantora e compositora de Garanhuns, com mais de 20 anos de carreira, voz potente e carisma marcante, levando alegria, emoção e identidade cultural a públicos de todas as idades. Há vozes que cantam. E há vozes que conduzem. Cynthia Galindo pertence à rara linhagem das artistas cuja voz não apenas interpreta melodias, mas cria atmosferas, desloca afetos e eleva o público a um estado de experiência sensorial plena. Menina-passarinha de Garanhuns, descobriu cedo que o ar podia ser morada. Foi no coral da igreja, entre os oito e doze anos, que aprendeu a transformar respiração em voo — uma escola clássica por onde passaram algumas das maiores vozes do mundo, do gospel norte-americano às grandes intérpretes da música popular internacional. Ali, Cynthia construiu a base técnica que sustenta, até hoje, sua impressionante extensão vocal, controle de dinâmica e domínio emocional. Aos quinze anos, sua estreia profissional já anunciava o que o tempo confirmaria: uma voz podero...

Wirveng Nathan: Resistência e Luta


Wirveng Nathan: Arte, Memória e Resistência
Por Vital Sousa, Escritor e Consultor Editorial

Apresentar um artista em processo de criação de si mesmo é uma tarefa que exige certa dose de coragem e toques de loucura: algo que me é familiar. Comecei a escrever aos dez anos, fascinado pela visão de mundos das imagens e ilustrações de livros e revistas que me chegavam às mãos e eram devorados por minha mente sequiosa. Ganhei, assim, a fama de garoto estranho, para a maioria, e de louco para os menos condescendentes. Por isso, sinto-me à vontade, como quem conversa no terreiro, sob a sombra de uma árvore, para mergulhar no passado e nas pinturas de Wirveng Nathan.

Garoto quilombola do Mundo Novo, em Buíque (PE), Nathan tem apenas alguns anos a mais que eu tinha quando descobri meu caminho pelas palavras. Ele revela um talento singular ao transformar memórias e vivências em pintura. Já com postura de gente grande, conta que começou a desenhar aos quatro anos de idade. Isso, em parte, explica sua precoce maturidade artística. Hoje, ao abrir suas asas sobre as telas, expressa seu cotidiano movido por “sentimentos de resistência e de luta”. Essa frase, por si só, é um manifesto: a pedra fundamental de sua vida e de sua obra.

As pinturas de Wirveng Nathan, Wirveng como assina suas telas, dialogam naturalmente com a Arte Naïf, produzida por autodidatas sem formação acadêmica, marcada pela espontaneidade, originalidade e liberdade expressiva. Suas obras figurativas e narrativas, de cores vibrantes e cenários detalhados, refletem um universo pessoal e instintivo, repleto de alegria, memória e pertencimento.

Em suas telas, há uma força expressiva genuína e rara, sobretudo em artistas autodidatas em processo de afirmação identitária e estética. Wirveng demonstra domínio intuitivo da composição, do equilíbrio cromático e uma sensibilidade empírica para o poder da cor e da forma na construção da identidade.

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Identidade e Território no Olhar Autodidata Quilombola
Por Tonny Aguiar, Escritor e Galerista

As pinturas deste jovem artista quilombola revelam um gesto de afirmação e pertencimento. São obras que nascem do chão onde ele pisa, do ar que respira e das memórias que o formam. Ao pintar, ele não busca imitar o mundo: busca reconhecê-lo em si mesmo.

Em sua trajetória autodidata, a arte surge como instrumento de libertação e narrativa do que os livros raramente contam: o cotidiano, o afeto, a força e a beleza da vida quilombola. Seu olhar é direto e carregado de uma expressividade intuitiva que dialoga com o universo de artistas populares como Heitor dos Prazeres, Djanira da Motta e Silva e José Antônio da Silva. Assim como eles, Wirveng se vale da cor, da forma e da simplicidade para comunicar mundos complexos.

A pintura “Retrato feminino com turbante” emerge como ícone de ancestralidade. A mulher negra, altiva, adornada com turbante e brinco colorido, olha o horizonte com serenidade e força. O fundo neutro confere destaque à figura e a consagra como símbolo de resistência e beleza afro-brasileira. O contorno firme e as cores vibrantes revelam segurança e identidade: é o retrato de uma memória coletiva.

Na obra, “Casa e árvore diante das montanhas”, a casa e a paisagem tornam-se extensões do corpo e da memória. As montanhas, o céu e o sol formam um espaço afetivo onde o olhar do artista busca abrigo e reconhecimento. O verde e o azul sugerem calma; a árvore seca, ao centro, evoca passagem, tempo e resistência, temas profundos da vivência quilombola. Tudo é simples, mas nada é ingênuo: o gesto pictórico traduz o equilíbrio entre o vivido e o sonhado.

Essas telas marcam o início de um caminho. São registros de um olhar que se constrói entre tradição e futuro, aprendizado empírico e sensibilidade poética. O território deixa de ser apenas espaço geográfico para tornar-se lugar de fala e criação.

Wirveng Nathan se revela autodidata, mas guiado por uma herança coletiva. Sua arte é espelho e voz. Uma forma de existir no mundo com cor, coragem e verdade.

Retrato feminino com turbante

Essa obra chama a atenção e evidencia síntese, firmeza de traço e consciência simbólica. A figura feminina, de perfil, me faz lembrar de figuras importantes do Quilombo Mundo Novo e é tratada com respeito e solenidade, remetendo a uma ancestralidade forte e silenciosa. O uso do plano de fundo neutro valoriza a personagem e acentua a cor da pele, o olhar expressivo, os lábios e o turbante.

A tela faz lembrar de pinturas com influência da estética afro-brasileira contemporânea, próxima ao trabalho de Heitor dos Prazeres, considerando a simplicidade das linhas e a frontalidade, assim como a expressividade icônica de Carybé, embora reinterpretada com uma voz própria e ainda imatura.

O traço preto que contorna a figura, um recurso muito utilizado por artistas populares, traz à lembrança a linguagem de Antônio Poteiro, que também valorizava o contorno e a forma simbólica sobre o realismo anatômico.

A tela demonstra um bom domínio intuitivo de composição e equilíbrio cromático. O artista já compreende, de maneira empírica, o poder da cor e da forma na construção de identidade.

Casa e árvore diante das montanhas

Nesta Obra, Wirveng se volta à memória e ao pertencimento territorial. O tema da casa, da paisagem rural e da natureza é comum em autodidatas que pintam o próprio entorno. Nos remete a José Antônio da Silva, Mestre Vitalino, numa linguagem tridimensional, e Raimundo Cela.

O uso do verde e do azul indica busca de serenidade e perspectiva, enquanto a árvore sem folhas e o telhado em tons terrosos criam contrastes emocionais. O sol alaranjado e as montanhas dão profundidade. Mesmo com a técnica, ainda, em desenvolvimento, Wirveng consegue demonstrar a sua intenção em pinceladas instintivas.

Há uma poética da simplicidade: o desenho não busca precisão, mas emoção. Isso aproxima o artista de nomes como Darcy Penteado e Djanira da Motta e Silva, todos autodidatas que encontraram no cotidiano popular e na memória afetiva o eixo de sua arte.

Nessa Obra a composição é bem distribuída, uso equilibrado de cor e espaço. Demonstra sensibilidade para perspectiva atmosférica e simbolismo.

Em ambos os trabalhos há um elo entre identidade, memória e resistência, traço marcante na arte quilombola contemporânea. Assim como Heitor dos Prazeres, Djanira e José Antônio da Silva, o jovem artista Wirveng Nathan demonstra:
  • Autonomia Estilística Intuitiva no traço seguro e composição simbólica;
  • Uso Expressivo da Cor como linguagem emocional
  • Temática de Origem na ancestralidade, lugar de fala e território;
  • Busca por Reconhecimento através da representação do próprio lugar de fala e pertencimento.
Esses elementos são os mesmos que levaram autodidatas de origem popular ao reconhecimento nacional e internacional, quando conseguiram consolidar uma identidade plástica coerente com suas raízes.

Cenas Cotidianas do Quilombo


Serviço:
No dia 16-Out-2025, Wirveng estará participando de sua Primeira Exposição Coletiva, dentro da FELIS - Feira Literária do Sertão, em Arcoverde (PE).

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Programa Escritor Efetivo - Transformando Silêncios em Palavras

Apresentação: Sem blá-blá-blá nem mi-mi-mi e, principalmente, sem promessas, pois compreendo que não existe garantia para nada na vida , o Escritor Efetivo é um Programa de Qualificação voltado para Escritores Iniciantes, com ou sem originais prontos - mas com a história, a ideia pronta para ser publicada - que nunca tenham lançado um Livro ou que caíram na conversa de algum espertalhão e perderam dinheiro e credibilidade lançando um Livro "de qualquer jeito". O Propósito do PEE - Programa Escritor Efetivo é a "Efetividade" desde o primeiro passo e está direcionado para a Autopublicação ... Como "Efetivo", preconizamos o Escritor certo, escrevendo o Texto certo, no Gênero certo, da Maneira certa, no Tempo certo e com Qualidade certa para o Leitor certo... Aqui a  Qualidade  é vista, pela ótica do TQC - Controle de Qualidade Total , aplicado ao Mercado Literário , como um elemento composto de 5 Dimensões :  Qualidade Intrínseca: do Produto (Livro)...

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Ventos do Catimbau - O Ser'tão Forte

Projeto: “Ventos do Catimbau – O Ser’tão Forte: Resistência, Resiliência, Resgate e Reconhecimento  no Semiárido Pernambucano” Objetivo: Identificar, Qualificar e Publicar Novos Escritores, além de Fomentar o Reconhecimento e a Valorização das pessoas que atuam em prol do Desenvolvimento Sustentável do Semiárido, destacando a importância da Educação e da Cultura em todas as suas linguagens. "Não somos 'bonzinhos' nem fazemos 'caridade': praticamos Economia Solidária e Marketing Social." - Vital Sousa - Tonny Aguiar - Biu Di Braga O  Projeto "Ventos do Catimbau - O Ser'tão Forte"  é uma Iniciativa Independente e, eventualmente, será financiado por Politicas de Fomento à Cultura como o PNAB e a Lei Rouanet.  Este é um   Projeto de cunho "Social e Sem Fins Lucrativos". O Proponente e Realizador cede os Direitos Autorais da obra Ventos do Catimbau – O Ser’tão Forte, assim como os seus Honorários para a realização das Palestras-Oficinas   c...

O Quintal das Acácias

Apresentação do Livro Desde as primeiras linhas, sinto-me invadido por ecos de escritoras que, antes de Cassia Guerra mergulharam nas entranhas do feminino para fazer emergir verdades incômodas e necessárias. Penso em Gertrudes, ou Tuda, de A Bela e a Fera de Clarice Lispector, quando pede um conselho que ninguém lhe pode dar; em Macabéa, em A Hora da Estrela , que existia na invisibilidade até ser revelada pela palavra. Recordo ainda as Insubmissas Lágrimas de Mulheres , de Conceição Evaristo, que transformam dor em escrita e silêncio em grito, e não posso deixar de ouvir o chamado de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo , ao lembrar que não se nasce mulher: torna-se. Não falo, portanto, de "empoderamento". Prefiro a palavra “reconhecimento”. Porque não se empodera o que já é poder. Dizer “empoderar” soa a concessão, como se fosse a sociedade patriarcal quem autorizasse as mulheres a existir. O Quintal das Acácias desmonta esse eufemismo e afirma: as mulheres sempre fora...

Amor.com

Amor.com: entre o clique e o coração Amor.com é um espelho da nossa época: e um grito contra ela. É a poesia tentando respirar entre notificações. É o amor tentando se salvar do Wi-Fi. Vânia Costa nos entrega um livro que não é apenas uma coletânea de poemas, mas uma cartografia emocional da era digital. Aqui, o amor aparece em todos os seus estados de conexão: plugado, offline, hackeado, reiniciado, deletado e renascido. Cada verso é uma tentativa de lembrar que, por trás de cada tela, ainda existe um coração. Inspirada por um mundo que confunde “curtidas” com afetos e “seguidores” com abraços, Costa escreve com uma mistura rara de doçura e lucidez. Sua linguagem é acessível, mas repleta de imagens que rasgam o cotidiano com beleza e dor. Entre uma metáfora e outra, a autora nos devolve o espanto da presença: o amor não como ideia, mas como vivência concreta, feita de corpo, toque, tempo e verdade. Lendo Amor.com , é impossível não reconhecer a própria vida: as conversas interrompid...