Cynthia Galindo é cantora e compositora de Garanhuns, com mais de 20 anos de carreira, voz potente e carisma marcante, levando alegria, emoção e identidade cultural a públicos de todas as idades. Há vozes que cantam. E há vozes que conduzem. Cynthia Galindo pertence à rara linhagem das artistas cuja voz não apenas interpreta melodias, mas cria atmosferas, desloca afetos e eleva o público a um estado de experiência sensorial plena. Menina-passarinha de Garanhuns, descobriu cedo que o ar podia ser morada. Foi no coral da igreja, entre os oito e doze anos, que aprendeu a transformar respiração em voo — uma escola clássica por onde passaram algumas das maiores vozes do mundo, do gospel norte-americano às grandes intérpretes da música popular internacional. Ali, Cynthia construiu a base técnica que sustenta, até hoje, sua impressionante extensão vocal, controle de dinâmica e domínio emocional. Aos quinze anos, sua estreia profissional já anunciava o que o tempo confirmaria: uma voz podero...
Uma tarde inteira e parte de uma noite vivendo uma cena clássica de desenho animado: o personagem diante de um dilema, num interlóquio com o um anjinho e um diabinho que, acaloradamente, aconselham atitudes a serem tomadas. No caso, eu, depois de um encontro casual com uma – por questões de segurança nacional chamarei de Anjo – pessoa das minhas relações eventuais – que bem poderia chamar de Diabinho – em pleno horário de almoço num restaurante, estando me refastelando com uma generosa porção de macaxeira com galinha guisada. Meu dilema é resolvido no final da noite, escutando, insistentemente, os chamados de Morfeu, quando num sobressalto lembro uma frase de Lacan: “A verdade só pode ser dita nas malhas da ficção”. Salvo pelo gongo, deixo de lado o diabinho e o anjinho e me entrego à imaginação de uma crônica para dizer “verdades”.
Um encontro casual que conectou minha mente com uma rede de sinapses neuronais, disparando uma avalanche de memórias midiáticas com a figura do Anjo.
Acostumado a vê-la em eventos e através das telas dos dispositivos eletrônicos, sempre com a sua melhor versão Executiva-Artista Multimídia–Feminista-Engajada, encontrá-la “travestida” de um ser normal como eu, mero mortal, foi uma agradável surpresa: um desses momentos ao acaso de pura alegria, como um encontro de um fã com seu artista favorito. O momento me faz lembrar uma frase atribuída a Guimarães Rosa que diz que "a alegria só ocorre em raros momentos de distração". Logo eu, com a agenda controlada, calculando a conexão de variáveis e administrando o tempo de forma cartesiana, me deparo com a ideia de que a alegria e até mesmo a felicidade – momentos felizes – são encontradas em momentos ao acaso, sem planejamento: momentos de pura distração.
Memórias à parte, para não derramar uma avalanche de verdades que envolveriam terceiros, a vontade era de levantar e dar-lhe um abraço, para poder examinar suas supostas asas, mas permaneci sentado, tergiversando com uma conversa meio sem pé nem cabeça, e me sentindo como uma centopeia - cheio de pernas – não levantei para não dar o vexame de tropeçar e cair em seus braços.
Por dentro, eu gargalhava com os meus eus, mastigando lentamente a macaxeira com galinha guisada, para extrair todo o sabor desta iguaria, enquanto decantava um mar de memórias para flutuar num céu de estrelas rabiscadas com giz. No entorno, a vida seguia o seu rumo – como sempre faz – alheia aos pensamentos de quem vive.
Desperto dos meus pensamentos para uma despedida formal com perspectiva de um eventual futuro encontro. No próximo eu estarei preparado ou não!
Vital Sousa
O Ponto dos Contos e Crônicas Improváveis - No Prelo. Quatro Editora.
